Em sua leitura sobre o cotidiano Henri Lefebvre¹ faz uma afirmação sobre como o dia a dia não pode existir enquanto uma generalidade. Existiriam tantos cotidianos quanto há pessoas, lugares e formas de vida. Não-neutro, o passar dos dias é, desse modo, um espaço que assume alguns recortes, algumas ideologias, restrições e normativas. Ainda assim, há quem defenda o uso do cotidiano como ferramenta poética por ele ser deliberadamente autêntico e democrático. Talvez o mais interessante seja pensar como algumas práticas artísticas, em fricção com imagens do cotidiano, podem reformular a maneira como habitamos o espaço das nossas próprias vidas.
Existe algo que me fisga o olhar de imediato em relação às pinturas de Fábio Menino. Elas me parecem relacionadas, de alguma forma, a algumas repetições quase mecânicas que constituem nosso cotidiano. O artista faz uma pesquisa precisa de objetos que permeiam algumas coreografias da vida, seja no ambiente doméstico ou urbano. São figuras como galões d’água, botijões de gás, ferros de passar, máquinas de lavar, mangueiras, ferramentas. Objetos que, na mesma medida que nos parecem triviais, ressoam nessas imagens como singulares e únicos. Fábio se interessa pelos aspectos pictóricos desses artefatos, levando em conta questões relacionadas ao design desses produtos, e pelos aspectos simbólicos. Quanto a esses últimos, chama atenção para o fato de que através da repetição do dia a dia, acabamos nos relacionando com essas coisas de modo quase alienado, uma vez que se tornam relações meramente funcionais.
As pinturas de Fábio Menino são construções quase “auráticas”, quando isolam o objeto de escolha, fazendo-o saltar à vista como uma figura que existe independente do seu contexto de sustentação. De vez em quando são inseridos pequenos elementos, como mãos, ou objetos auxiliares. Mas em sua maioria, arrisco afirmar, permanece uma ausência. Falar sobre ausência aqui não é defender a ideia de falta. Talvez as pinturas se bastem justamente pelas frequências de quietude que elas evocam, como indica Tina Campt ao sugerir que “escutemos as imagens”². No correlato sonoro, um som quieto não é ausência de ruído ou falta de articulação, mas algo parecido com um murmúrio que preenche o espaço com algum impacto e algum afeto, mesmo sem gritar aos ouvidos.
Maurice Blanchot³ caracteriza a banalidade do cotidiano como a coisa mais importante. É como se a repetição fosse profunda e simples ao mesmo tempo. No caso, os objetos pintados são artefatos que acabam se misturando na funcionalidade, ao mesmo tempo que constroem parte da paisagem cotidiana. São coisas para as quais estamos sempre olhando, por isso nunca parece que estamos as observando pela primeira vez, mas toda vez as observamos novamente. Na medida em que articulamos esses objetos, o cotidiano está sendo criado e moldado. Contudo, através da repetição, certas práticas, gestos e ações são apagados ou obliterados por conta de uma internalização. Mas não só. Esse espaço é atravessado por normativas, como dito anteriormente. Observar as construções visuais das pinturas de Fábio Menino também pode ser uma forma de tentar nomear esses gestos, que não podem ser neutros.
Dar-se conta dos objetos industriais retratados pelo artista é também questionar a respeito de quem normalmente empunha esses mesmos objetos, quem realiza tais gestos. É pensar como algumas coreografias cotidianas respondem aos recortes e às segmentações sociais que acabam determinantes de parte da paisagem urbana, industrial e doméstica, sobretudo no que concerne à raça, ao gênero e à classe. Em sua chegada na Refresco essas pinturas se misturam, no caso, à paisagem da zona portuária do Rio de Janeiro. Com suas janelas vazadas, a galeria revela o espaço do dia a dia de uma das regiões mais tradicionais da cidade, que desde cedo foi marcada por usos considerados “pouco nobres”, como atividades fabris e ocupação proletária, além de ter sido marcada pelo comércio escravocrata. Mesmo com tentativas e projetos visando transformações nesse tecido urbano, podemos e devemos questionar os desdobramentos práticos dessas iniciativas. É um território onde modalidades de ocupação estão permanentemente em disputa, por isso olhar por essa janela é também se perguntar sobre a população que ali habita e consequentemente constitui a vida desse lugar.
As pinturas dispostas nessa exposição criam mais diálogo na medida em que se desprendem, propositadamente, da parede. Em 1968 Lina Bo Bardi fazia as obras do acervo do MASP serem sustentadas pelos seus icônicos cavaletes de cristal. A expografia de ‘Mandril’ pensa menos em blocos suspensos no ar, investindo em algo que é, a um só tempo, simples e ousado. Aqui não faria sentido criar um ambiente onde as pinturas pudessem flutuar. Apesar da frequência, os elementos industriais têm um peso, seja pela sua força simbólica, ou pela sua legibilidade em termos de um discurso específico e marcado. As amplas janelas do espaço fazem com que não seja uma questão de escolha o espaço do bairro do Santo Cristo estar no ambiente, essa paisagem simplesmente o invade a todo momento, ainda que através de um sussurro. Sem o uso de retângulos de vidro e cubos de concreto, as pinturas são fixadas pelo espaço vazado com o uso de escoras metálicas, outrora oxidadas, mas pintadas de preto, contrariando a levitação. Assim como o mandril para as máquinas, permitem que as telas sejam acopladas à vacuidade do espaço, respondendo de forma situada a ocasião do encontro da Refresco com o trabalho de Fábio Menino, e recriando possíveis contextos de sustentação.
¹ LEFEBVRE, Henri. A Vida Cotidiana no Mundo Moderno. São Paulo: Editora Ática, 1991.
² CAMPT, Tina. Listening to Images. Duke University Press, 2017.
³ BLANCHOT, Maurice. A Conversa Infinita 2: a experiência limite. São Paulo: Escuta, 2007.
Direção Artística
Deborah Zapata
Renato Canivello
Curadoria
Daniela Avellar
Produção
Deborah Zapata
Renato Canivello
Fotografia
Pedro Tressi






