MAL-ADAPTATIVO – Emer Freire, 2026 / BALIZA

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Emer Freire (1995, São Paulo) investiga ideias de transformação, contaminação e mutualismo para questionar os limites da representação e das linguagens centradas na figura humana. Por meio de esculturas, pinturas e instalações de economia formal ambígua, o artista articula as contradições semânticas entre materiais industriais e orgânicos, tensionando os limites dessas categorizações. Em Mal-Adaptativo, exposição desenvolvida como uma instalação site-specific para o Baliza, Emer convida o público a refletir sobre mecanismos psicológicos e literários a partir das relações entre espaço, cor e luz. Interessado na criação de um espaço liminar, em que somos tomados por um estado de estranhamento diante do familiar, o artista propõe discussões sobre uma percepção desorientada por sistemas de defesa e pela obsessão em torno da vulnerabilidade.

Utilizando materiais como resina, alumínio, aço, mercúrio, chumbo e dióxido de carbono, Emer Freire cria um espaço evidentemente fabricado, de linguagem industrial, carregado de uma forte dimensão semântica vinculada à ideia de humanidade tal como a conhecemos. Ao evidenciar a estranheza desses materiais tão cotidianos, o artista propõe uma descentralização da representação do corpo, em busca de formas de habitá-lo que sejam mais incertas e ancoradas na dúvida. A hipervisibilidade da luz e das superfícies reflexivas, informadas pelas imagens de seu entorno, entra em contraste com elementos que obstruem qualquer precisão ou certeza sobre sua natureza. Em diálogo com o conto “A Toca” (Der Bau), escrito por Franz Kafka entre 1923 e 1924, Emer desenvolve a instalação provocado pelos pensamentos obsessivos, narrados em primeira pessoa, de uma criatura que constrói uma complexa toca para se proteger do mundo exterior.

Por meio da descrição minuciosa sobre a arquitetura de seu esconderijo, fruto de seu enorme esforço e planejamento, a criatura do conto projeta o espaço da toca como representação de segurança absoluta, controle e estabilidade. No entanto, quanto mais ele tenta aperfeiçoá-la, mais cresce sua ansiedade frente a possibilidade de invasão, dando contornos fugidios a ficção de inimizades a partir de sua obsessão. A narrativa se desenvolve como um fluxo contínuo de paranoia e autovigilância, em que o protagonista oscila entre o orgulho pela obra construída e o medo constante de que ela seja insuficiente. Neste conto inacabado escrito seis meses antes da morte do autor, no período entre guerras, Kafka nos põe frente a perturbadora condição em que somos perseguidos pelo que mais desejamos.

O que pode acontecer quando inquietações internas passam a se projetar como percepção distorcida de acontecimentos e como construção desenfreada de ambientes externos? Quando os ruídos mal-resolvidos do fluxo de pensamento são tão incessantes como ensurdecedores, é possível que se passe a suspeitar de qualquer sinal de presença externa como uma ameaça. Ainda, o que de fato reside na principal diferença entre interioridade e exterioridade, sobretudo a partir da lógica de localização proveniente do pensamento moderno? Quais poderiam ser os verdadeiros impactos da dissolução das fronteiras para tornarem-se, antes, zonas de contato? Em meio a um contexto relacional pautado globalmente pela instabilidade e pela hostilidade, refletido no maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e no enrijecimento de políticas migratórias, a exposição Mal-Adaptativo levanta algumas destas perguntas como discussões em aberto.

Nesta mostra, Emer retoma o conto kafkiano mais de um século após sua escrita para ampliar e atualizar essa reflexão sobre os efeitos reais da angústia diante da alteridade. De alguma maneira, o artista evoca o erotismo dos materiais para nos lembrar que desejo, dominação e violência estão tão profundamente entrelaçados que se tornam indistinguíveis no repertório comum. Mal-adaptativo, termo oriundo da psicologia que dá título à mostra, é definido como o complexo mecanismo de proteção e sobrevivência que acaba por produzir as próprias condições de angústia, isolamento e vulnerabilidade que buscava conter. Entre mecanismos psicológicos de defesa, fronteiras como ficções de controle e quimeras recombinantes em permanente instabilidade, Mal-Adaptativo nos confronta com a possibilidade de que aquilo que construímos para proteger nossas certezas seja também o mesmo que redefine, distorce e ameaça nossa capacidade de coexistir com a diferença.

Direção Artística e Produção
Renato Canivello
Uri Nonnato

Curadoria e Texto 
Matheus Morani