Alexandre Nitzsche Cysne faz de suas expedições em depósitos e em ‘xepas’ de feiras e mercados sua principal rotina de trabalho. Essa fascinação pelo colecionismo e acumulação se reflete também em sua relação com o vestuário, como acontece na obra de artistas “profetas” tal como Arthur Bispo do Rosário. Inspirado também no escultor francês Étienne-Martin, o artista exibe no espaço CAMA uma peça intitulada ‘Manto do fim dos tempos’, além de outras obras indumentárias.
Nessas construções, o corpo aparece como suporte latente, ainda que ausente, sugerido por estruturas que oscilam entre abrigo, armadura e relicário. As peças tensionam a fronteira entre objeto utilitário e artefato simbólico, ativando uma dimensão quase ritualística que atravessa toda a exposição. O acúmulo de materiais, longe de operar apenas como gesto formal, aponta para uma lógica de sobrevivência e reinvenção, onde restos e excedentes urbanos são reencenados como portadores de memória e potência.
Ao aproximar elementos oriundos de circuitos populares e marginais de uma imagética que flerta com o mítico e o teatral, Nitzsche Cysne constrói uma espécie de arqueologia do presente. Seus trabalhos parecem emergir de um tempo deslocado, onde passado e futuro se embaralham, evocando tanto ruínas quanto profecias. Nesse sentido, o “golfo místico” deixa de ser apenas uma referência espacial para se tornar também uma zona de suspensão, um intervalo entre função e ficção, entre o visível e o latente.
É nesse espaço intermediário que suas obras operam, como dispositivos que convocam o espectador a habitar uma instabilidade, onde o ordinário é constantemente reencantado e onde o excesso, de formas, de histórias e de materiais, se transforma em linguagem.
Curadoria
Renato Canivello
Produção
Renato Canivello





