Espeleotema – Fátima Aguiar, 2026 / BALIZA

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A água se infiltra pelas lajes, atravessa fissuras, dissolve compostos minerais e, ao escorrer, deposita lentamente novas camadas. O cálcio e o calcário reagem com a umidade e o ar, formando estruturas pendentes, delicadas e persistentes.

Noventa por cento das vezes, quando penso na formação de uma paisagem, nunca consigo dissociar um prédio de uma rocha. É como se eu estivesse assistindo ao antes e ao agora, não pelo fato de os materiais naturais estarem presentes na composição, mas porque talvez eu tenha a visão romântica de que a construção de um elemento arquitetônico dessa escala, voltado a determinada função, se aproxima dos processos naturais que dão origem a um gnaisse facoidal. Temperatura, pressão e a combinação de elementos químicos, físicos, mecânicos e humanos resultam tanto em catástrofes quanto em monumentos.

Os materiais racham, escorrem e se depositam novamente sobre o solo. Vivem como vivem as rochas, atravessando eras.

O processo de carbonatação é semelhante tanto em cavernas quanto em prédios. Ele ocorre quando o dióxido de carbono presente no ar penetra nas estruturas. Em seguida, a água infiltra-se, funcionando como solvente e meio para a reação. O cimento ou a rocha calcária constituem o substrato que, em condições favoráveis, gera, por acúmulo, estalactites e estalagmites.

A durabilidade projetada do concreto não elimina sua vulnerabilidade a infiltrações, fissuras, carbonatação e outros processos físico-químicos que, ao longo do tempo, reintroduzem instabilidade ao sistema construído. Assim, o material que organiza a ordem estrutural da cidade também participa, silenciosamente, de sua lenta transformação.

Mudamos o mundo. Construímos a viscosidade, a sobreposição de camadas e as dobras geológicas da nossa sociedade e da forma como ela opera no espaço. As fissuras, infiltrações e recristalizações materiais revelam que a paisagem construída permanece aberta a processos de transformação que ultrapassam a intenção técnica inicial, recolocando a humanidade dentro de um ciclo mais amplo de desgaste, sedimentação e recomposição da matéria.

Direção Artística e Produção
Renato Canivello
Uri Nonnato

Texto
Fátima Aguiar