Da rua à pintura, do oriente ao Brasil tropical, a Refresco apresenta com a individual de Bernardo Liu uma exposição que mistura o cotidiano a um aconchego retiniano. Dando o título e o tom da mostra, Ba Bao Fan, ou « Arroz dos Oito Tesouros », faz referência à uma sobremesa chinesa, cujo formato redondo e sabor adocicado evocam símbolos de união e de felicidade, sendo presença frequente nas mesas de festas tradicionais asiáticas.
Iniciando a temporada artística de 2025, celebrando o Ano Novo Chinês, Bernardo Liu propõe com Ba Bao Fan, uma tapeçaria afetiva, na qual constrói e reinventa memórias subjetivas. Essa construção extrapola uma identidade « caramelo », mistura de Brasilidade
com o passado camponês do seu avô chinês antes de imigrar para o Brasil.
Tal como o « Arroz dos Oito Tesouros » – que além do arroz pegajoso, inclui ingredientes simbólicos como o nosso tradicional feijão – Ba Bao Fan enfatiza, não apenas subjetividade e memórias, mas também o papel nutritivo da arte. Com a série Feito com amor, um conjunto de marmitas pintadas pelo artista forma um círculo. Aqui, fragmentos da imagética que define, de alguma forma, a identidade do artista estão postas à mesa. Um copo de guaraná, um nota de dez reais, uma embalagem de miojo e uma lata de cerveja coexistem assim ao lado de bibelôs de porcelana representativos da cultura oriental, compondo uma espécie de mesa agridoce onde arte e comida se fundem e referências culturais se encontram.
Aliás, as aproximações entre a arte da mesa e a arte stricto sensu não se limitam à esfera afetiva. Este processo quase alquímico de elaboração culinária encontra paralelo no processo pictórico de Liu. Aplicando camadas de tinta sobre a superfície de suas pinturas
– do acrílico mais aguado às pinceladas mais matéricas de tinta a óleo, o artista constrói superfícies e elabora diálogos entre os elementos ingredientes que emergem da sua mente. Neste fazer, ele desenvolve um planejamento intuitivo do espaço, apagando e evidenciando à medida que seu pensamento ganha corpo, junto com a materialização de interlocuções formais e dos objetos e animais portadores de bons auspícios, que parecem flutuar na tela.
Desdobramentos microscópicos desse pensamento são visíveis em pinturas menores, onde elementos isolados do vocabulário pictórico de Liu revelam um apego aos objetos presentes na casa de seus avós, talvez como forma de resgatar as origens familiares. Animais, plantas e bibelôs ocupam assim as paredes, remetendo a elementos de decoração ou do folclore oriental, juntando passado e presente e estéticas distintas.
Tecendo uma ponte entre as artes gráficas – Liu se formou em design gráfico – e visuais, bem como ocidente e oriente, a paleta de cores usada pelo artista ainda pode sugerir um parentesco longínquo entre a paleta RGB de cores e as cores tradicionais chinesas e seus significados. O vermelho, além de ser a cor do pau-brasil, também pode representar fogo, felicidade e prosperidade (e não atoa uma série de pequenos formatos dessa cor abrem a exposição, como tantos patuás ou amuletos de boa sorte), o verde, além da vegetação
tropical, evoca saúde, esperança e harmonia enquanto o azul do céu e do mar também remete à vida longa, cura e confiança.
Neste caleidoscópio de referências, afetos e lugares, Bernardo Liu estabelece sob a proteção da serpente que acompanha este novo ciclo, um retrato pessoal de um Brasil plural, rico em afetos e elementos trazidos de culturas distantes, inseridos no cotidiano mestiço. Assim o artista convida o público para uma celebração despretensiosa, uma mesa aberta com guaraná ginseng, miojo, arroz doce e feijão salgado. Uma homenagem visual à riqueza de um mundo plural, onde o kitsch, o simbolismo e o desejo de pintura se mesclam com a intencionalidade de um cozinheiro que, a fogo lento, elabora uma receita capaz de despertar memórias e emoções há muito tempo enterradas.
Direção Artística
Deborah Zapata
Renato Canivello
Produção e Curadoria
Deborah Zapata
Renato Canivello
Texto
Julie Dumont












