Alado – Coletiva, 2025 / Galeria REFRESCO

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Artistas participantes:


Estevan Davi
Fátima Aguiar
Felipe Suzuki
Gabriel Ribeiro
Gabriella Garcia
Lucas Milano
Renato Rios

A dimensionalidade, demasiadamente humana, é corrompida. O que é próximo torna-se limitado, ele é capaz de navegar por algo que é mais expandido, mais vasto. Alado nos conta, todavia, que o agora é sempre fractal, e que a ideia de progresso é como uma névoa a encobrir o que realmente importa: cada pedaço brilha, a despeito das circunstâncias, toda experiência reluz. Essa exposição coletiva se permite uma pequena deriva ficcional, como se através de uma micro-narrativa ela pudesse convocar este personagem, junto às obras selecionadas, para contar uma história que tem implicações na história do mundo. A série de trabalhos que são aqui encontrados dá forma e relevo às informações que Alado nos traz. A historiografia enquanto campo estático e rígido dá lugar a um céu repleto de bichos esvoaçantes. A desestabilização por ora dá medo, mas por ora também nos inspira a um estado de redenção. O afresco em concreto de Estevan Davi é uma espécie de arqueologia reversa: o fragmento é marcado por um profundo anacronismo. O concreto, outrora entulho, é artefato mítico que conjuga o passado da técnica com o presente do material. Gabriella Garcia também transita no tempo, revisitando histórias hegemônicas e cristalizadas, propondo novas leituras. Os símbolos que ela desloca são marcadamente clássicos, buscando assentá-los no contemporâneo e com isso revirando as camadas interpretativas que são construídas ao longo da história das imagens. O vazio permeia as pinturas de Felipe Suzuki. Evocando uma técnica tão longeva quanto a natureza morta, as imagens não cessam de desejar o contemporâneo. Por isso as figuras não são capazes de se entregar por completo, tratando-se de trabalhos que são, nas palavras do artista, semi-abstratos. Por serem “quase”, não se revelam por completo, há uma sobra, a preservação do mistério, uma suspensão temporal. Já nas pinturas de Lucas Milano, os contrastes entre luz e sombra também conservam uma certa dimensão de segredo. A completude é rejeitada, são paisagens psicológicas e aladas, porque não? Como se as pinceladas fossem detentoras de um dinamismo similar ao bater de asas, revelando novas dimensões do real, na mesma medida em que escapam da ideia de totalidade. O trabalho de Renato Rios, com suas estrelas de sete pontas, lança ao espaço um simbolismo que é tanto formal quanto transcendental. A estrela, que se expande do centro, parece tensionar o espaço como se abrisse portais entre os tempos. Cada ponta sugere um fragmento de tempo que não pertence a um só momento, mas que vibra entre o passado, presente e futuro, ressoando com a ideia de uma arqueologia celestial. A estalactite de Fátima Aguiar nos transmite as conexões entre as formações naturais e as construções urbanas. Usando prata, ela recria essa forma, que habitualmente ocorre nas cavernas devido à deposição de minerais, traçando um paralelo entre a composição calcária das rochas e os edifícios, que, segundo ela, também desenvolvem uma espécie de estalactite ao longo do tempo. As obras de Gabriel Ribeiro denotam o vetoral químico e experimental do artista. Sua relação comas temporalidades é impressa de distintas formas e em diferentes superfícies, aparecendo nos procedimentos e transposições entre materialidades, que vão desde a presença da espuma de poliuretano ao uso do alumínio fundido. Em alguns casos Gabriel incita transformações a partir da ação de processos que já acontecem no mundo, como a impressão da luz do sol. Alado é como um arqueólogo das virtualidades, quando escava as camadas de terra e de ar em busca do que está enterrado ou sussurrado. A procura, aqui, pode ser algo como uma tentativa de dimensionar as origens, a partir de todos os saberes que estão nesta exposição elencados, seja de forma direta ou indireta; e de mexer nas memórias coletivas, marcadamente simbólicas. Interessam os lampejos de passado implicando no presente e no futuro, uma certa atmosfera celestial – tudo sendo, ao mesmo tempo, mágico e profano. Além da história factual, os fragmentos míticos são o que nos permite ir mais fundo na experiência diante do tempo

Direção Artística

Deborah Zapata
Renato Canivello

Produção e Curdadoria
Deborah Zapata
Renato Canivello

Texto
Daniela Avellar