CASSINO – Zé Tepedino

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As fibras de celulose não branqueadas dos papéis pardos aqui dispostos, feito um esqueleto dilatado, junto à ação das intempéries do tempo sobre a superfície, deixam entrever, a partir da aproximação sutil do corpo, rastros produzidos por caneta esferográfica. A presença das linhas, aqui, parece conter uma força narrativa própria, propondo relações de significação em considerável amplitude.

Parece razoável dizer que toda linha é capaz de sugerir ação e movimento, como partituras silenciosas e sutis. Isso, na mesma medida em que o desenho se liga, toda vez, a uma função de especulação. O desenho se situa assim como algo que sugere ao olhar certas orientações e possibilidades de deslocamento, convocando o corpo a percorrer suas formas e a se aproximar de alguma maneira, ainda que seja através de um gesto sibilante.

Barthes caracteriza o texto como aquilo que se inscreve sobre a superfície. Esse entendimento amplia a ideia textual para qualquer encontro em materiais que se dá a partir dessa relação enérgica de inscrição. Inclusive, é possível pensar o texto a partir das inscrições pictóricas, entre outros movimentos na arte. A depender das fricções, dos apoios e dos pesos, muito pode ser considerado “escrita”. Nesse sentido, é possível dizer que há uma poética e uma narrativa imantando, de forma geral, o trabalho de Zé Tepedino.

Seu encontro com determinadas materialidades não é meramente fortuito. Zé tem uma capacidade muito singular, orientada pelo olhar, pela caminhada, pelos percursos por entre espaços, de lidar com o residual. Os objetos que cruzam o seu caminho não parecem surgir apenas por um interesse pela manufatura. Existe algo muito mais minucioso, que se reporta àquilo de mínima espessura, um encantamento pelo detalhe e pelo que habita as entrelinhas. O artista me diz, em conversa, sobre um interesse pelas coisas que ficam à margem, por aquilo que, no fim das contas, se inscreve como memória.

Memória é rastro. O rastro, enquanto signo gráfico, ganha um tônus especial quando voltamos aos grafismos encontrados nos papéis aqui dispostos. Esses objetos são frutos de uma situação que acontece, encadeada, em uma praça, local por onde Tepedino caminhava cotidianamente. O Ocidente buscou a separação entre as instâncias do desenho e da escrita, mas o texto parece ter uma relação intrínseca com a imagem. De certa forma, ao que é escritura é conferido o grau de legibilidade e de credibilidade, enquanto às linhas dos desenhos são relegadas à função projetual (basta pensarmos nos garranchos expressivos das crianças, mas os exemplos são mais numerosos). Derrida, no entanto, contribui muito para um entendimento que aqui ganha particular interesse: se toda leitura pressupõe um deciframento, é necessário entender todo texto como algo portador de certas “regras do jogo”, como um código próprio. Logo, parcialmente, toda escrita é, em alguma medida, ilegível.

Pressupor a existência de regras, mais ou menos acessíveis, inerentes a cada mistério narrativo é interessante, pois o ambiente no qual os papéis são encontrados se refere a uma jogatina de praça. A cidade sendo experimentada em sua dimensão mais comunitária. O que tem tudo a ver com a forma como Zé Tepedino nos leva a celebrar as poéticas nas frequências diminutas cotidianas. Se tomamos os desenhos que se manifestam aqui, grafados sobre a superfície particular dos papéis pardos, enquanto ilegibilidades frutos de gestos repletos de energia e afeto, somos capazes de ler a poética também a partir de uma chave cara ao contemporâneo.

Se tudo queremos significar, se um texto deve exprimir todo o relevo do sentido, cometemos o erro de não deixar que as coisas falem. Ou pior, de limar as ambiguidades e as nuances, o que tem ficado escancarado pelo uso das inteligências artificiais na manufatura de ideias escritas. A presença da linha e do desenho, nesse trabalho, no entanto, não se manifesta solta, mas articulada a partir de um pensamento espacial.

É nesse sentido que Zé Tepedino sabe lidar de uma forma primorosa com o residual. A memória, intrinsecamente volátil, é articulada materialmente no e pelo espaço. O Baliza exemplifica de modo fundamental o que podemos esperar dos espaços, quando falamos em dispositivos-exposição, no contemporâneo. São como muitos espaços em um só, deixando de ser definidos por coordenadas fixas para se ligarem a uma relação de vizinhança entre pontos, elementos e formas organizadas por tramas e redes.

Cada lugar converge em um só lugar, mas ao mesmo tempo se espalha, de modo que todo dispositivo expositivo ou instalativo dissolve distâncias fixas a favor de uma lógica conectiva, tornando o espaço essencialmente relacional e topológico. Em meio a esse movimento, a relação poética e afetiva não se dissolve, pelo contrário. O uso dos cabos de aço ao tensionar os numerosos e leves papéis é uma forma de dar corpo à memória, aproximando a dimensão silenciosa dos desenhos/rastro encontrados, de uma possibilidade de fazer deles escrituras ilegíveis sugestivas ao corpo e à conexão, que nos aproximam da capacidade libertária de assumir os limites das significações e das amplitudes de leitura enquanto um movimento de se aproximar de um mistério indomável.

Em Cassino, Zé Tepedino, ao desmontar e desfolhar as regras do jogo, ao desafiar as escalas (penso nos cassinos norte-americanos, seus espetáculos luminosos, as grandes quantidades de dólares, tudo que se reporta ao grande), e aproximar para uma escala mais íntima, parece remontar, novamente, o calor das relações próximas de vizinhança, fazendo do desenho e do rastro uma forma de comunicação não verbal, o residual do afeto.

Direção Artística e Produção
Renato Canivello
Uri Nonnato

Texto 
Daniela Avellar